Do bagaço da cana à geração de renda: a economia circular cria oportunidades
Quem passou pela Fenasucro & Agrocana, a principal feira de bioenergia do mundo, se deparou com grandes máquinas, tecnologias para usinas e soluções voltadas à cadeia de bioenergia. Mas, no meio de uma indústria dessa dimensão, um material aparentemente simples também pode contar uma história interessante: o bagaço da cana.
O que sobra do processamento da cana pode alimentar caldeiras, gerar eletricidade, servir de matéria-prima para novos produtos e até ser transformado em produtos que geram renda para famílias, como peças de decoração feitas à mão.
É justamente aí que surge uma pergunta interessante: se a indústria já encontrou diferentes maneiras de aproveitar esse material, onde ainda existe espaço para uma pessoa comum transformá-lo em uma oportunidade de renda?
Neste artigo, vamos partir da realidade da cana-de-açúcar na região de Ribeirão Preto para entender o que é economia circular e como essa lógica pode abrir caminhos para novos negócios.
O que é economia circular?
A economia circular parte de uma lógica diferente da forma tradicional de produzir e consumir. No modelo linear, o caminho costuma ser simples: extrair, produzir, usar e descartar. Já na economia circular, a ideia é evitar que o que poderia ser reaproveitado termine no lixo.
Dessa forma, um material que perdeu sua função original pode voltar ao ciclo por meio de reúso, reparo, reciclagem ou como matéria-prima para outro produto. Por exemplo: uma garrafa pet usada pode se tornar um outro objeto ou uma sobra de produção pode servir de insumo para outra atividade.
Ou seja, o que antes era visto como algo para descarte passa a ser entendido como recurso. E é exatamente essa lógica que encontramos na cadeia da cana-de-açúcar.
Princípio da economia circular
- Repensar: avaliar se é possível produzir e consumir de uma forma que gere menos desperdício
- Reduzir: usar menos recursos, energia e matérias-primas sempre que possível
- Reutilizar: dar uma nova função a produtos ou materiais antes de descartá-los
- Reciclar: transformar resíduos em matéria-prima para novos produtos
- Recuperar: aproveitar materiais, componentes ou energia que ainda têm valor antes do descarte final
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A cana-de-açúcar já é um dos maiores exemplos de economia circular do Brasil
Quando o assunto é economia circular, a cadeia da cana-de-açúcar no Brasil é um bom exemplo de como funciona em grande escala. O aproveitamento dos resíduos já faz parte do próprio funcionamento das usinas, que encontram diferentes destinos para materiais gerados ao longo da produção.
E a quantidade é enorme: para cada tonelada de cana processada, são gerados 250 kg de bagaço, aproximadamente, segundo dados da Embrapa.
E esse aproveitamento já atingiu uma escala relevante: na safra 2023/24, a Conab estimava que 95% dos resíduos gerados pela indústria canavieira seriam reutilizados. É essa capacidade de encontrar novos usos para praticamente todas as partes da cana que aproxima tanto o setor da economia circular.
O bagaço já deixou há muito tempo de ser apenas uma sobra da moagem para se tornar uma matéria-prima com valor. Vale lembrar que, embora o principal uso do bagaço seja a geração de energia, ele também pode virar matéria-prima para novos produtos e até mesmo fonte de renda.
Diferentes partes e subprodutos da cana que podem voltar para o ciclo produtivo
- Bagaço e palha: são usados como biomassa para gerar vapor e eletricidade nas usinas. Dependendo da operação, parte dessa energia também pode ser disponibilizada para a rede elétrica
- Vinhaça: pode ser aproveitada para produção de biogás e também retornar ao campo, principalmente na fertirrigação dos canaviais
- Torta de filtro: rica em matéria orgânica e nutrientes, pode voltar ao solo como fertilizante
- Levedura excedente: resultante da fermentação do etanol, pode ser aproveitada na alimentação animal
Do uso industrial ao pequeno negócio: onde ainda há espaço?
Se boa parte do bagaço de cana-de-açúcar já é aproveitada pelas usinas, isso não significa que todas as possibilidades estejam esgotadas. Para quem pensa em empreender, a oportunidade não está em competir com a indústria pelo uso em grande escala, mas em encontrar aplicações diferentes para pequenas quantidades desse material.
O bagaço é tão versátil, que está presente tanto na pesquisa científica quanto em produtos que já chegaram ao mercado como:
- Embalagens para alimentos: pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, em Pirassununga, desenvolveram embalagens biodegradáveis para frutas, bebidas e hortaliças usando painéis feitos com bagaço de cana e resina à base de óleo de mamona
- Descartáveis biodegradáveis: esse tipo de aplicação já está no mercado. A Qualifest, por exemplo, comercializa pratos, potes e bowls produzidos com bagaço de cana como alternativa aos descartáveis convencionais
- Bioplásticos: no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), pesquisadores desenvolveram um composto derivado do bagaço capaz de substituir matérias-primas provenientes do petróleo na fabricação de determinados tipos de plástico.
- Proteção para eletrônicos: pesquisadores do CNPEM criaram uma espuma a partir do bagaço com propriedades antiestáticas, pensada para proteger componentes eletrônicos durante transporte e armazenamento.
- Artesanato e decoração: peças feitas à mão, como a apresentada na Fenasucro por Tânia Caruso, fazem com que o bagaço de cana deixe de ser apenas matéria-prima para processo industrial e passe também para a bancada do artesão
Para o pequeno empreendedor, é nos usos artesanais que estão as possibilidades mais acessíveis. Com pouco volume de bagaço, técnica e criatividade, é possível criar peças de decoração e outros produtos de maior valor. E é nesse ponto que o reaproveitamento começa a ir além da questão ambiental, já que um resíduo disponível em abundância também pode se transformar em oportunidade de trabalho.

Quando reaproveitar vira renda e inclusão
O time da Solution Indoor foi na Fenasucro 2026 e conversou com Tânia Caruso, artesã e artista plástica brasileira, que nos apresentou um excelente exemplo do que a economia circular pode gerar fora da escala industrial: o bagaço da cana transformado em peças artesanais.
E ela ensina tudo o que sabe para outras mulheres, ou seja, o trabalho também está ligado à capacitação de mulheres que encontram mais dificuldade para entrar ou permanecer no mercado formal como mães atípicas, mulheres vítimas de violência ou mulheres com mais de 50 anos.
A proposta da Tânia é ensinar uma técnica que possa ser feita com mais flexibilidade e, a partir dela, criar uma alternativa de renda. Ou seja, o reaproveitamento de resíduo também pode ser uma forma de trabalho e renda para quem está à margem do emprego formal.
O potencial da economia circular
O potencial da economia circular é maior do que parece. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que a transição para uma economia circular possa gerar cerca de 4,8 milhões de empregos na América Latina até 2030, principalmente em atividades de reúso, reparo, reciclagem e reprocessamento de materiais.
Mas há uma diferença importante entre esse dado e o caso do artesanato de bagaço de cana. A projeção da OIT inclui apenas empregos formais. Já iniciativas como a apresentada na Fenasucro por Tânia Caruso, muitas vezes são fruto de trabalho autônomo, informal ou complementar, que nem sempre aparece nas estatísticas. Por isso, o impacto sobre a geração de renda pode ir além desses números oficiais.
Comportamento do consumidor: mais consciência ambiental
O Sebrae aponta que 64% dos consumidores preferem comprar de marcas comprometidas com questões éticas e ambientai, ou seja, existe um mercado e muitas oportunidades para produtos provenientes da economia circular.
Isso ajuda a entender por que uma peça feita de bagaço de cana pode ter valor muito maior do que o próprio resíduo. O diferencial não está apenas no material, mas também na transformação, na técnica e na história por trás do produto.
Portanto, economia circular também pode ser inclusão econômica: algo que seria descartado ganha valor, e esse valor pode se transformar em oportunidade para quem precisa de uma forma mais acessível e flexível de gerar renda.
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Pequenos negócios também podem gerar inovação
Quando se fala em inovação, muita gente pensa logo em inteligência artificial, tecnologia de ponta ou grandes investimentos. Mas inovar também pode ser dar uma nova função a um material, criar um produto diferente ou transformar um recurso disponível em oportunidade. Uma peça artesanal feita com bagaço de cana é considerada inovação por enxergar valor onde antes só se via sobra. E ainda existe muito espaço para isso entre os pequenos negócios.
Uma pesquisa do Sebrae sobre o engajamento dos pequenos negócios brasileiros às práticas de economia circular revelou que apenas 16,51% conhecem o conceito. Ou seja, mais de 83% ainda não conhecem ou não compreendem bem essa lógica.
Esse contraste chama atenção. De um lado, a indústria sucroenergética da região já aproveita quase toda a cana-de-açúcar e seus resíduos. Do outro, grande parte dos pequenos negócios ainda nem identifica a economia circular como uma possibilidade de atuação.
É justamente nessa distância que pode surgir oportunidade. Não para competir com a grande indústria, mas para encontrar usos que ela não explora, especialmente em pequena escala, com criatividade, identidade local e valor agregado.
Para quem empreende, inovação também pode começar assim: olhando para um material que já existe e perguntando o que mais ele pode virar.
Ribeirão que empreende
Histórias como essa mostram que o empreendedorismo pode assumir diferentes formas.
Grandes indústrias, pequenas empresas, profissionais autônomos e iniciativas sociais fazem parte do mesmo ecossistema de inovação e desenvolvimento. O Ribeirão que Empreende nasce de uma ideia da Solution Indoor de justamente para olhar para esse ecossistema e mostrar as ideias, negócios e pessoas que estão encontrando novas maneiras de criar valor.
Ribeirão Preto é conhecida como a Capital da Cana, pois o município e a região formam o principal polo sucroenergético do mundo. A região concentra uma enorme fatia da produção nacional de cana. Frente a isso, cabe ao empreendedor observar e se perguntar: como posso aproveitar as oportunidades da minha região para inovar em um negócio?
O mercado tem espaço para quem vê produtos e serviços com olhos diferentes. Esse exemplo do bagaço de cana mostra bem que o empreendedorismo pode assumir diferentes formas. Uma oportunidade pode surgir em uma grande indústria, mas também em um pequeno negócio, no trabalho de um profissional autônomo ou em uma iniciativa inovadora que transforma um material usado que seria descartado em uma nova fonte de renda.
Empreender vai muito além de abrir uma empresa
Empreender também é identificar uma oportunidade, resolver um problema e transformar um recurso disponível em algo que tenha valor. Isso aparece de modos bem diferentes como:
- Indústrias que reaproveitam resíduos da cana.
- Pequenos negócios que criam novos produtos.
- Profissionais autônomos que transformam conhecimento em serviço.
- Iniciativas sociais que encontram formas de gerar renda a partir do que antes seria descartado.
Tudo isso cria valor a partir das oportunidades que existem ao redor e que são identificadas por meio de um olhar inovador. E é justamente essa diversidade que fortalece o ecossistema empreendedor da cidade.
Lembre-se: não existe uma única forma de inovar ou de empreender. Cada negócio, projeto ou iniciativa contribui à sua maneira.
A Solution Indoor faz parte desse cenário ao oferecer estrutura para quem está começando, crescendo ou buscando um espaço profissional em Ribeirão Preto e região. Salas, coworking, endereço comercial e fiscal, por exemplo, ajudam novos projetos a ganhar forma e presença, sem exigir que o empreendedor monte toda uma estrutura própria desde o início.
Quer um espaço para dar vida à sua ideia de empreendedorismo? Fale com nosso time e conheça nossas soluções.